Pedaços da história - E o estádio parou

31.08.2016
Pedaços da história - E o estádio parou

Domingo de sol, subi de mãos dadas com meu pai a escada de madeira que dava acesso a arquibancada de entrada do campo. Tinha mais ou menos 10 anos de idade. O estádio Ademar de Barros, ou da Fonte Luminosa, como queiram, estava completamente lotado.

Lá em baixo, de um lado, a AFE com seu uniforme principal, camisas e meias grenás, calções brancos. De outro, calções, camisas e meias, tudo branco. Era início dos anos 70. Ferroviária X Santos. Jogão de bola. E o Pelé ali, pertinho, pertinho. 

Nosso goleirão atendia pelo nome de Carlos Alberto. Que goleiro! Calmo, tranqüilo, ágil e seguro.

E a AFE em tarde iluminada. O jogo transcorria com belos lances. A bola feliz da vida. A tarde era de festa, de bom futebol. E o “Negão”, bem marcado, pouco produzia. 

E vem um ataque santista. Fulminante. Bola alçada para a frente, nas costas da zaga afeana. Mas ali tínhamos o Carlos Alberto. E isso não era pouco. O goleirão deixou a meta, e como um autentico libero, dominou no peito, trouxe de volta  com um “balãozinho”, e recolheu com as mãos já dentro da área. Sabia tudo o nosso goleiro.

E tome bola para frente, já que o time inteiro da AFE ainda estava no campo do Santos. A bola atravessou o campo, alta, muito alta, e foi caindo, caindo, lá, quase no bico direito da grande área do time peixeiro. Atravessou todo o campo. Como chutava nosso goleiro!

E eu, nos meus 10 anos de idade, olhava embevecido. Então, uma mancha branca subiu lentamente. Branca e negra. E parou a bola lá em cima, no peito. Literalmente parou no ar. Desceu devagar para o chão. Parece que bateu apenas com um pé. O de apoio. E rompeu. Lá vinha a mancha branca e negra correndo, incólume, rápida, decidida. E trazendo a bola. Colada. No peito.

Passou o meio campo. E continuava vindo.

Uma multidão de camisas grenás corriam desesperadamente ao seu lado. Desesperadamente impotentes. O que eles podiam fazer? Só se chutassem, com uma fantástica voadora, a cabeça daquela “mancha branca e negra” que agora já se aproximava do bico esquerdo da grande área afeana.

O estádio inteiro estava de pé. Em silencio. 

Perto da marca de cal que delimita a grande área Pelé estufou o peito e, finalmente, a bola desgrudou e saltou descrevendo lentamente um semi-circulo e baixando a meia altura.

O “Negão”, ao contrário da trajetória da bola, subiu, de lado, e num voleio espetacular bateu cruzado, forte, alto. O Carlos Alberto saltou certo. Até hoje acho que ele pegaria. Mas a bola passou alta explodiu no travessão e foi subindo, subindo e depois, foi caindo e se aproximando, se aproximando, até bater forte do meu lado, pertinho do meu pai. Nem me mexi. 

Fiquei olhando a bola quicar entre nós, ali na arquibancada. Nem tentei pegar a bola. Nem eu, nem ninguém. Todos estavam como que hipnotizados com que acabáramos de assistir. Embasbacados, mesmo.

Lá em baixo o Carlos Alberto gritava do alambrado pedindo a bola de volta. Acho que foi ele que acordou a gente. A gente  e todo o estádio. E então, com o povo saindo do transe coletivo, começaram a espocar os aplausos. Aqui e ali. E de repente o estádio inteiro aplaudia. De pé. 

Sei lá quem foi, mas alguém devolveu a bola. E o jogo recomeçou.

Lá no campo parece que ninguém ligou para o que o “Negão” tinha acabado de fazer.  Jogador de futebol, naquela época, era bicho esquisito. Se o cara não fosse realmente bom, com certeza não jogaria. Mas fazer pouco caso daquele lance era coisa inexplicável. Mas sei lá, eles eram os craques. E se entendiam.

E veio o final do grande jogo. Inesquecível jogo para todos nós que lá estivemos e para a gloriosa história da Ferroviária:  4X1 pra nós.  É isso mesmo. Foi 4 a 1 para a AFE, fora o baile.

Mas a cena do “Negão” atravessando o campo com a bola colada no peito até a entrada da área e chutando de primeira, de voleio, não saía da minha cabecinha de criança. E não sai até hoje. 

São três os detalhes, para mim, inesquecíveis daquele Ferroviária 4X1 Santos. Só um é alegre. O resultado do jogo. 

O triste, é que tempos depois, quando pescava em companhia de outros jogadores, se eu não me engano no Rio Mogi, o goleirão Carlos Alberto, caiu do bote e foi tragado, para sempre, pelas águas. Não sabia nadar. Perda irreparável aquela.

E finalmente, o detalhe do arrependimento, que é com relação à bola que quicou e quicou ao meu lado lá na arquibancada depois do lance genial de Pelé. Até hoje me arrependo, e como me arrependo, de não ter pegado aquela bola e, numa desabalada carreira, ter voltado pra casa com ela debaixo dos braços. Mas não o fiz.

Texto: Hamilton Mendes

Revista Cidade

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