Araraquara na Revolução

09.07.2016
Araraquara na Revolução

Hamilton G. P. Mendes

Entre a madrugada de 9 de julho, passando por todo o dia 10, precipitou-se em Araraquara uma avalanche de notícias sobre a deflagração do movimento revolucionário na capital paulista. A situação confundiu os líderes e a população local.

Finalmente, na noite do dia 11, confirma-se o esperado e na edição de 12 de julho, em matéria de 1ª página, O Imparcial divulgava: “São Paulo, 11 – (Rádio) – Movimento Constitucionalista – O aviador paulista José Boccacio, acompanhado do civil Mourão, alcançou a capital da República, conseguindo lançar manifestos e 80 kg de jornaes paulistas em plena cidade. Os tripulantes do avião paulista voaram sobre a Avenida Rio Branco a 30 metros de altura”.

Logo a seguir, um comunicado da capital: “O QG da faculdade de direito de São Paulo, MMDC, avisa os alistados para se apresentarem em suas divisões, ás 20:00hs afim de aguardar ordens”.

Pouco abaixo, a proclamação da Prefeitura de Araraquara baixada naquele dia: “Ao Povo: A Prefeitura Municipal de Araraquara, por seu Prefeito infra-assignado, obedecendo instrucções emanadas do Departamento de Adminstração Municipal do Estado, convoca cidadãos que quizerem se alistar, prestando serviços como voluntários á causa do Estado de são Paulo, que é a causa do Brasil, a comparecerem ao edifício da Prefeitura, na Praça Municipal, a partir de hoje, para instrucções necessárias sobre o módo como se devam conduzir...as inscripções se acham abertas em uma das salas daquella repartição das 12 ás dezessete horas. Francisco Vaz Filho – Prefeito”

O apoio à causa foi imediato, e a população da cidade foi para as ruas. No dia seguinte, 13 de julho, os primeiros voluntários araraquarenses seguiram para se integrar às forças que estavam se formando na capital pela constitucionalização do país.

Araraquara, na época uma pequena cidade, mandou para as frentes de batalha 541 de seus filhos. Entre eles, uma mulher, Dna May de Souza Neves, esposa do Dr. Camillo Gavião de Souza Neves, que seguiu no dia 14 de julho para servir no Serviço Hospitalar para Assistência ao Soldado Constitucionalista.

 

Mobilização total

A mobilização popular pela causa Constitucionalista em nossa cidade foi total. Homens, independente da idade ou condição social, apresentaram-se em massa para servir nos batalhões que se formavam na capital. Grandes fazendeiros e pequenos agricultores colaboraram com enormes quantidades de alimentos e outros artigos para sustentar as forças de São Paulo nas frentes de combate. A população, em geral, doou de tudo: alianças, anéis, relógios, pratarias, dinheiro, roupas etc.

Formou-se nas escolas do município inúmeros grupos de moças que costuravam todo tipo de peças de vestuário para serem enviadas aos soldados em campanha; funcionários do escritório central da antiga EFA, proibidos em uma primeira hora de se apresentar como voluntários organizaram uma campanha para arrecadação de fundos. Além disso, todo o destacamento de polícia foi enviado para as frentes de batalha.

Diante disso, coube ao Tiro de Guerra local - que na época tinha a designação numérica 610, e havia sido elevado a condição de Tiro pouco mais de três meses antes (já existia como Linha de Tiro desde 1911) -, a responsabilidade de fazer o patrulhamento da cidade, bem como, da Guarda da cadeia da local.

 

Os Mártires

Três meses depois, ao final do conflito, seis araraquarenses não retornaram: Bento de Barros, Diógenes Muniz Barreto, Tenente Joaquim Nunes Cabral, Waldomiro Machado, José Cesarini e Joaquim Alves. Todos, mortos em combate.

Encerradas as hostilidades, a Prefeitura de Araraquara reclamou seus corpos e erigiu, na Avenida principal do cemitério São Bento, um Mausoléu em homenagem a todos os araraquarenses que se envolveram na epopéia constitucionalista, onde foram enterrados os heróis da cidade que tombaram pela causa.

O Mausoléu ao Movimento Constitucionalista de 1932 foi inaugurado, com grande afluência popular, no dia 9 de julho de 1934, ainda sob vigência de uma lei federal que proibia qualquer manifestação simpática ao movimento deflagrado por São Paulo. Logo após a cerimonia no cemitério São Bento a população acompanhou as autoridades até a esquina da Avenida Duque de Caxias com a Rua 2, até aquele dia denominada Rua do Comércio. Ali, foi descerrada a primeira placa com a nova denominação da principal via comercial de Araraquara, Rua 9 de julho.

No início dos anos 70, com a transferência dos despojos dos araraquarenses que tombaram no conflito para o Monumento Constitucionalista do Ibirapuera, em São Paulo, o mausoléu tornou-se um monumento, e foi instalado pela Prefeitura na 1ª rotatória da Avenida Bento de Abreu, na Fonte, imortalizando, assim, os épicos momentos vividos pelos araraquarenses da época. 

 

Passagens da história

Um dos episódios mais marcantes para os araraquarenses do período, se refere a enorme bandeira de São Paulo que era carregada, aberta, por moças e moços pelas ruas da cidade aos gritos de “Ouro para São Paulo”, que foi um movimento patrocinado pelos constitucionalistas que visava obter fundos para manter a Revolução.

Os jovens andavam pela cidade recebendo doações, que eram jogadas sobre a bandeira, e ao terminarem a jornada dirigiam-se até a entrada da Casa Barbieri, nas esquina da Rua 9 de Julho (na época Rua do Comércio), com Avenida Duque de Caxias, local em que hoje está sediada uma loja, onde os aguardavam o Dr. Octavio Arruda Camargo e os demais responsáveis pela contabilização das doações.

A bandeira de São Paulo era dobrada, como uma trouxa de roupa, e entregue ao Dr. Octávio, que a levava para dentro da loja. Lá, os responsáveis procediam a contabilização das doações e as guardavam no cofre. Uma vez por semana, um emissário apanhava tudo e levava, de trem, para o Governo Revolucionário em São Paulo.

Outra importante ocorrência do período diz respeito ao início das atividades da Rádio Cultura, cujas transmissões se realizavam todos os finais de tarde, de dentro das lojas Barbieri. Na fachada do estabelecimento foram instalados auto falantes e toda a cidade se dirigia para lá perto das 18 horas, horário que um locutor transmitia as “Notícias do Front”, e lia “As Cartas do Front”, que eram as cartas enviadas por araraquarenses que se encontravam nas frentes de batalha. A emoção era geral.

Revista Cidade

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