A participação de Araraquara na Revolução de 32

08.07.2017
A participação de Araraquara na Revolução de 32

Entre a madrugada de 9 de julho, passando por todo o dia 10, precipitou-se em Araraquara uma avalanche de notícias sobre a deflagração do movimento revolucionário na capital paulista. A situação confundiu os líderes e a população local. 

Finalmente, na noite do dia 11, confirma-se o esperado e na edição de 12 de julho, em matéria de 1ª página, O Imparcial divulgava: “São Paulo, 11 – (Rádio) – Movimento Constitucionalista – O aviador paulista José Boccacio, acompanhado do civil Mourão, alcançou a capital da República, conseguindo lançar manifestos e 80 kg de jornaes paulistas em plena cidade. Os tripulantes do avião paulista voaram sobre a Avenida Rio Branco a 30 metros de altura”. 

Logo a seguir, um comunicado da capital: “O QG da faculdade de direito de São Paulo, MMDC, avisa os alistados para se apresentarem em suas divisões, às 20 horas afim de aguardar ordens”. 

Pouco abaixo, a proclamação da Prefeitura de nossa cidade: “Ao Povo: A Prefeitura Municipal de Araraquara, por seu Prefeito infra-assignado, obedecendo instrucções emanadas do Departamento de Adminstração Municipal do Estado, convoca cidadãos que quizerem se alistar, prestando serviços como voluntários á causa do Estado de são Paulo, que é a causa do Brasil, a comparecerem ao edifício da Prefeitura, na Praça Municipal, a partir de hoje, para instrucções necessárias sobre o módo como se devam conduzir...as inscripções se acham abertas em uma das salas daquella repartição das 12 ás dezessete horas. Francisco Vaz Filho – Prefeito”. 

O apoio à causa foi imediato, e a população da cidade foi para às ruas. 

No dia seguinte, 13 de julho, os primeiros voluntários araraquarenses seguiram para se integrar às forças que estavam se formando na capital pela constitucionalização do país.  

Araraquara, na época uma pequena cidade, mandou para as frentes de batalha 541 de seus filhos. Entre eles, uma mulher, Dna May de Souza Neves, esposa do Dr. Camillo Gavião de Souza Neves, que seguiu no dia 14 de julho para servir no Serviço Hospitalar para Assistência ao Soldado Constitucionalista.

 

Mobilização total

Assim como em todo o estado de São Paulo, a mobilização popular pela causa Constitucionalista em nossa cidade foi total. Homens, independente da idade ou condição social, apresentaram-se em massa para servir nos batalhões que se formavam na capital.

Grandes fazendeiros e pequenos agricultores colaboraram com enormes quantidades de alimentos e outros artigos para sustentar as forças de São Paulo nas frentes de combate. 

A população, em geral, doou de tudo: alianças, anéis, relógios, pratarias, dinheiro, roupas etc. Formou-se nas escolas do município inúmeros grupos de moças que costuravam todo tipo de peças de vestuário para serem enviadas aos soldados em campanha; funcionários do escritório central da antiga EFA, proibidos em uma primeira hora de se apresentar como voluntários organizaram uma campanha para arrecadação de fundos. 

Além disso, todo o destacamento de polícia do município foi enviado para as frentes de batalha. Em razão de tal fato, coube ao Tiro de Guerra local, que na época tinha a designação numérica 610, e havia sido elevado a condição de Tiro pouco mais de três meses antes (já existia como Linha de Tiro desde 1911), a responsabilidade de fazer o patrulhamento da cidade, bem como, da Guarda da cadeia da local. 

Durante três meses, tempo em que durou o conflito, toda a cidade esteve unida em torno da causa e de manter ativo o exército paulista. Tudo, para alcançar o objetivo maior: a Constitucionalização do país.

 

Os Mártires

Três meses depois, ao final do conflito, seis araraquarenses não retornaram: Bento de Barros, Diógenes Muniz Barreto, Tenente Joaquim Nunes Cabral, Waldomiro Machado, José Cesarini e Joaquim Alves. Todos, mortos em combate. 

Encerradas as hostilidades, a Prefeitura de Araraquara reclamou seus corpos e erigiu, na Avenida principal do cemitério São Bento, um Mausoléu em homenagem a todos os araraquarenses que se envolveram na epopéia constitucionalista, onde foram enterrados os heróis da cidade que tombaram pela causa. 

O Mausoléu ao Movimento Constitucionalista de 1932 foi inaugurado no dia 9 de julho de 1934, ainda sob vigência de uma lei federal que proibia qualquer manifestação simpática ao movimento deflagrado por São Paulo, encontra-se hoje na 1ª rotatória da Avenida Bento de Abreu, na Fonte, para onde foi transferido no ano de 1972, imortalizando, assim, os épicos momentos vividos pelos araraquarenses da época. 

 

Momentos da história

- Um dos episódios mais marcantes do período se refere a enorme bandeira de São Paulo, que era carregada, aberta, por moças e moços pelas ruas da cidade aos gritos de “Ouro para São Paulo”, movimento patrocinado pelos constitucionalistas que visava obter fundos para manter a Revolução. 

Os jovens andavam pela cidade recebendo doações, que eram jogadas sobre a bandeira, e ao terminarem a jornada dirigiam-se até a entrada da Casas Barbieri, nas esquina da Rua 9 de Julho (na época Rua do Comércio), com Avenida Duque de Caxias, local em que hoje está sediada uma loja de tecidos e roupas, onde os aguardavam o Dr. Octavio Arruda Camargo e os demais responsáveis pela contabilização das doações.

A bandeira de São Paulo era dobrada, como uma trouxa de roupa, e entregue ao Dr. Octávio, que a levava para dentro da loja. Lá, os responsáveis procediam a contabilização das doações e as guardavam no cofre. Depois, um emissário apanhava tudo e levava, de trem, para o Governo Revolucionário em São Paulo. 

 

- Outro importante dado da época se refere as primeiras transmissões realizadas pela rádio Cultura (inaugurada naquele ano) que aconteciam todos os finais de tarde, de dentro das Casas Barbieri. Foram colocados auto falantes diante da loja e toda a cidade se dirigia para lá perto das 18 horas, quando o locutor transmitia as “Notícias do Front”, e lia “As Cartas do Front”, que eram as cartas enviadas por araraquarenses que se encontravam nas frentes de batalha.

 

- Também deve se registrar a criação dos batalhões infantis, quando crianças da cidade vestidas com roupas militares andavam pelas ruas invocando a colaboração de todos para o sucesso do movimento. 

 

- Um momento, porém, ficará para sempre na memória dos araraquarenses da época. Segue relato obtido pela reportagem junto ao senhor Wilmon Barbieri (in memoriam), testemunha do período: 

“Depois de terminada a guerra, quando os soldados araraquarenses voltaram, a cidade estava ocupada por tropas de Minas. Ainda me lembro quando os vi arrombarem o cadeado de um casarão no centro, onde fizeram seu QG. O comandante mineiro, um capitão, no entanto, era um homem muito justo. Muito bom. Quando o trem parou na Gare da Paulista, os jovens araraquarenses que voltavam, ainda irritados com a derrota, gritaram “Viva São Paulo”, Viva São Paulo”, e o povo que os esperava respondeu aos gritos com “Vivas”. Os soldados mineiros, antão, assentaram uma metralhadora no páteo da estação e foi aquela correria. Só não aconteceu uma tragédia naquele dia porque o Capitão, aos gritos, ordenou aos comandados que parassem com aquilo”. 

Importante registrar que no mesmo dia 9 de julho de 1934, quando a cidade toda acorreu ao cemitério São Bento para inaugurar o Mausoléu ao Soldado Constitucionalista, onde estavam depositados os despojos dos seis araraquarenses mortos em batalha no conflito, a Prefeitura inaugurou também a primeira placa com a nova denominação da Rua do Comércio (na esquina da Rua com a Avenida Duque de Caxias), que a partir daquele dia passou a ser denominada Rua 9 de Julho.

Em seguida a cerimônia de inauguração que deu nova denominação a principal rua comercial da cidade, a Prefeitura inaugurou uma placa que foi afixada na parede externa da loja das Casas Barbieri (também localizada na esquina da Avenida Duque de Caxias), em homenagem aos serviços prestados pelos irmãos à causa da Revolução. A placa, ainda se encontra lá.

 

Revista Cidade

Publicidade

Brasil