A história secreta do movimento constitucionalista de 1932

06.07.2017
A história secreta do movimento constitucionalista de 1932

Os bastidores de 32. Conheça os detalhes que levaram o País a uma guerra civíl sem precedentes

Hamilton G. P. Mendes

A Revolução Constitucionalista de 1932, quando o estado de São Paulo se levantou em armas pela defesa da Constitucionalização do país marcou todo um período da história brasileira. O Movimento, ao contrário do que muito se disse, nunca foi Separatista, e muito menos uma tentativa de políticos da Velha República de voltar ao poder. 

O levante, na verdade, envolveu alguns dos principais estados brasileiros, mobilizou vários entusiastas de 30 e sua bandeira maior era resgatar os princípios democráticos que levaram o Governo Provisório ao poder dois anos antes.

Na defesa da constitucionalização do país, da representação popular através do voto universal e secreto,e da designação de magistrados para presidir as eleições gerais, inúmeros líderes do movimento que derrubou a Velha República pelo País passaram a exigir ações concretas do Governo Provisório.

Getúlio Vargas e os próceres de 30, por sua vez, perpetuavam-se a frente do Governo e não davam mostras de que estavam dispostos a levar adiante as reformas prometidas. Ao contrário, tudo indicava o início de uma ditadura.

Revoltas e movimentos envolvendo lideranças alinhadas com os revolucionários de 30, mas que exigiam mudanças, eclodiram no Rio Grande do Sul, Paraná, São Paulo, Minas Gerais e no Rio de Janeiro. O Governo Vargas reagiu com violenta repressão e o descontentamento popular levou o povo às ruas.

Com tudo isso acontecendo, o País fervia em frenéticas agitações entre fevereiro e junho de 1932, e os quatro principais estados envolvidos no movimento decidiram pela organização de um movimento que derrubasse Vargas e implantasse as reformas prometidas em 1930.

Uma data foi marcada para a deflagração conjunta do processo revolucionário: 14 de julho. A Revista Cidade conta aqui alguns detalhes dessa história:

 

Outubro de 1930

Liderado por Getúlio Vargas e apoiado por um braço armado conhecido como Tenentistas (uma ala do Exército que defendia mudanças na política brasileira e tentava derrubar a Velha República desde o início dos anos 20), eclode uma revolução que coloca fim à República dos Coronéis, ou "Velha República". O movimento implanta um Governo Provisório, nomeia interventores para dirigir os estados e as cidades brasileiras, e promete reformas políticas, a democratização do País e a convocação de uma Constituinte. 

 

Dezembro de 1931

Patrocinada pelos Tenentistas, realiza-se em Poços de Caldas uma reunião envolvendo Oswaldo Aranha, líderes civis do Governo Provisório, além de militares do Tenentismo integrados aos diversos Comandos de Exércitos do país.

Após as discussões, firma-se, secretamente, o “Pacto de Poços de Caldas” que, entre outros pontos resolve pelo seguinte: Extinção de todos os partidos, supressão das polícias estaduais, afastamento dos líderes civis das funções administrativas, reajustamento das funções das Forças Armadas, e implantação de uma ditadura com prazo estipulado de 20 anos para sanear o país.

Firmou-se um documento do Pacto, que todos os presentes, menos o Coronel Plínio Tourinho, comandante da 5ª Região Militar, subscreveram. O Plano foi denunciado pelo Coronel Tourinho em fevereiro de 1932, ao líder gaúcho João Neves da Fontoura, um dos principais entusiasta de 1930 e que, a partir daí, colocou-se contra Getúlio.

 

Fevereiro de 1932

Flores da Cunha, interventor do Rio Grande do Sul, profere violentos discursos em várias cidades gaúchas pregando a luta armada para restaurar a legalidade no país. Explodem nos estados de Santa Catarina, Paraná, Minas Gerais, São Paulo e Rio de Janeiro enormes manifestações públicas contra o governo. A polícia de Getúlio reage com violência. Em São Paulo, políticos do PD, apoiados pelos outros partidos, lançam a Campanha Nacional pela Constituinte.

 

Março de 1932

Flores da Cunha reúne-se em Porto Alegre com políticos do estado tentando obter apoio para a deflagração de um movimento armado contra Getúlio.

Em São Paulo, as manifestações pela Constitucionalização do país ganham as ruas. Políticos de São Paulo procuram Flores da Cunha no Rio Grande do Sul solicitando seu apoio a São Paulo caso houvesse outra intervenção no estado. Cunha pediu a entrada de São Paulo no movimento que se formava para depor o Governo Provisório.

Os emissários paulistas manifestaram-se simpáticos a idéia e afirmaram que o Rio Grande do Sul poderia contar com os paulistas. Um mês depois, Flores da Cunha manda entregar grande quantidade de armas a todas as unidades gaúchas, exceto as forças de Cachoeira e Caxias, tidas como Tenentistas.

 

Maio de 1932

Flores da Cunha ordena ruidosa concentração de forças da Brigada Militar em Santa Maria. Explode o 23 de maio em São Paulo, com a morte de Martins, Miragaia, Dráusio e Camargo; eclodem revoltas no Paraná, Santa Catarina e na capital, Rio de Janeiro; o 12º de Cavalaria de Belo Horizonte, um dos mais fortes de Minas, declara seu apoio ao movimento. O Interventor mineiro manifesta simpatia aos revolucionários.

 

Junho de 1932

Flores da Cunha manda o Sr. Batista Luzardo a São Paulo a fim de indagar aos lideres paulistas, em definitivo, se queriam, ou não, fazer a revolução. Caso a resposta fosse positiva, qual seria a força militar que São Paulo teria disponível para a vitória.

No final do mês, em visita ao Rio de Janeiro, o interventor gaúcho procura o líder e conterrâneo João Neves da Fontoura e afirma que tudo estava pronto para a deflagração do movimento revolucionário.

Ainda em junho, autoridades do governo paulista são procuradas pelo Tenentista Coronel Rabello, e ouvem dele a intimação: “Não desejo intervir, nem forçar São Paulo a nada...O caso não deve ser resolvido “Manu Militari”...Escolha-se outro Interventor Civil para o estado e este nomeará outro Secretariado em conjunto com os Revolucionários...”. Getúlio havia decidido depor Pedro de Toledo.

A notícia vaza para fora das paredes do Palácio do Governo e chega às ruas. A revolta é geral e o povo toma, de vez o centro da capital. São Paulo estava se transformando em um barril de pólvora.

Final de junho de 1932. O General Rabello, Tenentista ferrenho, começa a concentrar forças comandadas por oficiais leais a Getúlio na capital de São Paulo. O argumento: ”Manter a ordem”.

Avisado, o General Kingler comandante da Circunscripção do Mato Grosso, envia Circular aos comandantes dos Corpos sob sua jurisdição onde informa, “...exhortei-o a não collaborar novamente na farsa da deposição desse governo que corresponde ao anseio dos paulistas”.

 

1º de julho

Os líderes gaúchos Raul Pilla e Sinval Saldanha, apelam a Flores da Cunha para que este não deixasse o território nacional no momento da luta. O interventor declara a todos os presentes: “..que se me confiam o poder de ser o juiz da hora em que o Rio grande e o Brasil devem se lançar em armas contra a dictadura...se São Paulo não iniciar o Movimento..o Rio Grande por si o fará”.

Ao mesmo tempo, em São Paulo, o povo estava nas ruas e o estado estava ficando sem controle. Pedro de Toledo, então, envia o Dr. Aureliano Leite como seu emissário a Porto Alegre. Sua missão: Reiterar o compromisso de São Paulo com o movimento e obter apoio formal, por escrito, de Flores da Cunha de que o Rio Grande do Sul estaria com São Paulo caso ocorresse alguma intervenção no estado.

O interventor gaúcho reitera, por escrito, “que o compromisso com São Paulo é irrevogável...e em especial se o General Kingler fosse afastado do Comando da Circunscripção do Mato Grosso ou se houvesse tentativa de se modificar o Secretariado Paulista ”. Combina-se para o dia 14 de julho a deflagração do movimento.

Pouco depois, o comandante da Circunscrição do Mato-Grosso, General Bertholdo Kingler protesta contra uma nomeação no exército em detrimento de Góis Monteiro, é demitido de seu posto e mandado para a reserva. Revolta-se, e comunica seu apoio, com tropas, ao Governo de São Paulo e a causa da Revolução. 

 

5 de julho

Diante da crescente concentração de forças militares getulistas em São Paulo, e de suas atitudes francamente hostis, Pedro de Toledo encaminha às autoridades gaúchas, mineiras, catarinenses e paranaenses, apelo para que o movimento fosse apressado, “..não estamos conseguindo nos sustentar e o povo está nas ruas...será uma tragédia de conseqüências imprevisíveis...”, dizia o texto.

Em Porto Alegre, o líder gaúcho, Sr. Celidário Filho, de posse das preocupantes informações vindas de São Paulo, reúne-se às pressas com Flores da Cunha: “...a situação do governo paulista é insustentável no status quo atual...ou ele dá seu apoio expresso a Ditadura, aceitando uma Pasta no Ministério...e enfrenta a revolta do povo que está nas ruas...ou resolve-se imediatamente pela Revolução....que é o que a população quer....o prolongamento da situação actual permitirá a infiltração da Guarnição de São Paulo por elementos ditatoriais...e dentro em breve assistiremos a deposição do governo de São Paulo...a Frente Única de São Paulo quer manter os compromissos com a Frente Única do Rio Grande...seja pois a Frente Única do Rio Grande o árbitro da situação.”.

A resposta de Flores da Cunha: “..o Rio Grande em qualquer hipótese, manterá seu compromisso com São Paulo. A movimentação está marcada para o dia 14”.

 

Sábado, 9 de julho de 1932

A concentração das Forças ditatoriais em São Paulo chega a níveis críticos. Esperava-se a deposição do governo paulista para os próximos dias ou horas. O povo, mesmo sem estar inteiramente a par da situação, estava nas ruas.

A pressão aumenta e se iniciam frenéticas trocas de telegramas entre os líderes de São Paulo e os outros estados da Federação. Começam as movimentações de tropas leais a Getúlio na capital paulista.

O povo parece perceber algo errado e toma as ruas do centro. Naquela noite, começam a circular civis armados, o Posto do MMDC é aberto, começam as inscrições para o voluntariado e ninguém mais conseguiu segurar o povo que deflagra por conta própria, 5 dias antes da data combinada pelos lideres estaduais, a Revolução Constitucionalista.

Na madrugada de 9 para 10 de julho as autoridades paulistas enviam dramáticos telegramas para os estado envolvidos no Movimento: “Não podemos mais agüentar. A Revolução está em marcha...encontramo-nos para a vitória da legalidade”. 

 

11 de julho de 1932

Dois dias depois de deflagrado o Movimento Constitucionalista em São Paulo, os líderes gaúchos João Neves, Raul Pilla, Baptista Luzardo, Lindolpho Collor e Borges de Medeiros, preocupados com a demora do interventor Flores da Cunha em assumir o papel de vanguardista do movimento o procuraram no Palácio, onde ele estava isolado há dias.

Ao cobrarem atitude do interventor, souberam da tragédia que se abateria sobre todos eles. No dia anterior, ainda pela manhã, Flores da Cunha havia enviado telegrama urgente para Getúlio Vargas. O texto dizia o seguinte: “Fui apunhalado pelas costas...estou calmo e sereno...manterei a ordem ou morrerei. Abraços”.

O Movimento fora traído já havia 24 horas. Os Tenentistas já estavam agindo e prendendo líderes militares e civís por todos os estados envolvidos, menos em São Paulo.

Imediatamente a notícia foi espalhada via telegrama e cabeças coroadas da política brasileira deslocaram-se rapidamente de seus estados para São Paulo. Ao chegarem a capital paulista a explicação era a mesma: “É melhor ser derrotado ao lado de São Paulo do que vencer ao lado da Ditadura”.

No mesmo dia 11 as primeiras forças paulistas começaram a seguir para as divisas do estado, onde estacionaram, e aguardaram a chegada das forças dos outros estados para, então, juntos, todos marcharem rumo a capital. O apoio nunca chegou. Ao contrário. O estado de São Paulo foi cercado e resistiu bravamente por três meses, até que diante da iminência de uma invasão e da morte de milhares de brasileiros decidiu capitular.

Os soldados paulistas, na sua maioria civís que haviam seguido voluntariamente para os campos de batalha com o intuito de garantir a constitucionalização do País, não aceitaram a rendição e retornaram para as cidades de origem ainda armados e fardados.

Isso aconteceu em Araraquara e o fato quase causou uma tragédia na Estação Ferroviária da cidade - mesmo prédio existente até hoje. Ocorre que logo após a rendição das forças paulistas, Araraquara foi ocupada por tropas mineiras - o prefeito da época, Francisco Vaz Filho, acabou substituído por um interventor militar -  Major Faustino Cândido Gomes – 03/10/1932 a 13/10/1932 -, e os soldados mineiros, armados, se postavam em posições estratégicas no pátio da estação aguardando a chegada dos voluntários araraquarenses que seguiram para os campos de batalha.

Foi então que chegou à estação ferroviária uma composição com dezenas de voluntários araraquarenses, quase todos armados e fardados. Os soldados mineiros se assustaram e ameaçaram fazer fogo contra as pessoas que deixavam os vagões. A tragédia só não se consumou devido a pronta intervenção do comandante do destacamento, que aos gritos evitou o início do tiroteio.  

Tempos depois, já nos anos 40, de cima da Tribuna da Câmara dos Deputados, Flores da Cunha, inesperadamente, proferiu um “mea culpa”: “Envergonho-me de 32...um dia voltarei a São Paulo e me desculparei com os paulistas...”.

Por - Hamilton Mendes

Revista Cidade

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