A Capital das Artes

10.07.2015
A Capital das Artes

Nos anos 40 e 50, Araraquara era reconhecida em todo o País pelo trabalho realizado na Escola de Belas Artes e no Conservatório Dramático e Musical

Hamilton Mendes

Nos idos anos 40 e 50, Araraquara fervilhava no âmbito cultural, e o trabalho aqui realizado pela Escola de Belas Artes e pelo Conservatório Dramático e Musical, era reconhecido por todo o País, com a cidade ganhando o simpático apelido de “Capital das Artes”.

Tudo começou na Sessão da Câmara Municipal realizada em 10 de fevereiro de 1926, quando, através do Projeto de Lei nº.37, de autoria de Bento de Abreu Sampaio Vidal, os vereadores autorizaram ao então prefeito, Plínio de Carvalho, conceder auxílio de “...até 10 contos de réis, mais o aluguel de um prédio....a associação que fundar...e manter...nesta cidade....uma Escola de Bellas Artes”.

Nem tudo ocorreu como se esperava, no entanto, e somente em 1935, depois de nova iniciativa do Sr. Bento de Abreu Sampaio Vidal - seu fundador -, é que escola foi definitivamente fundada e instalada. Começava aí, uma das mais ricas histórias da cultura do estado de São Paulo e, consequentemente, do país.

Os primeiros tempos

Primeiro diretor da Escola de Belas Artes de Araraquara, o doutor José Campos de Almeida, convidou o conhecido e respeitado pintor italiano, Quirino Campofiorito, para organizá-la e fazer parte de seu corpo docente. Atuando ao lado sua esposa, D. Hilda, e do senhor Eduardo Bevilacqua, Quirino lecionou com extrema competência pintura, desenho, modelagem, arte decorativa e outras formas de arte que fizeram, desde o início, a Escola de Belas ocupar lugar de destaque no cenário nacional.

As autoridades municipais, tendo a frente o então Prefeito, José Maria Paixão, prestigiaram sobremaneira a iniciativa dotando-a com uma verba de 36 contos anuais, na época, uma ajuda excepcional.

Entusiasmado com o êxito inicial da iniciativa, Quirino Campofiorito lançou, em 1936, o 1º Salão de Belas Artes de Araraquara, acontecimento inédito em todo o estado de São Paulo. Ainda no mesmo ano era criada a Galeria de Belas Artes da cidade, e fundado, a 24 de outubro, o Núcleo de Belas Artes de Araraquara, sociedade dos alunos da Escola, que mais tarde, em virtude de tristes acontecimentos, tomou a responsabilidade pelo funcionamento da própria Escola.

O Estado Novo e o Núcleo

Com a implantação do Estado Novo, a 10 de novembro de 1937, os alicerces da política estadual e municipal ficaram definitivamente abalados. Caiu o Governador, subiu o Interventor. Nos municípios, os Prefeitos foram sumariamente substituídos.

E um dos primeiros atos do novo chefe do Executivo de Araraquara, foi cancelar a verba da Escola de Belas Artes. Logo depois, por absoluta falta de apoio, a escola fechou suas portas. Inconformados com decisão das autoridades, os integrantes do Núcleo tomaram a frente de tudo e decidiram manter a Escola, tratando, porém, de adquirir seus direitos, com o registro dos Estatutos.

O Grupo assumiu, também, a organização dos “Salões”, iniciando sob sua administração o 3º deles, até sua oficialização. Manteve e ampliou a Galeria de Belas Artes e transformou os três objetivos em suas principais atividades.

A nova fase

No ano de 1941 entrou em suas fileiras, a senhora May Conceição de Souza Neves, entusiasta das artes plásticas. Em seguida, assumiu a direção artística do Núcleo, o artista Mario Ybarra de Almeida, pintor de extrema sensibilidade que passou a lecionar pintura e desenho aos alunos. No mesmo ano, contagiada pelo estupendo trabalho que ali se realizava, a Prefeitura resolveu restabelecer uma verba anual de 6 contos de réis para auxiliar a escola.  Trinta contos a menos daquela que havia sido concedida alguns anos antes. Mas já era alguma coisa.

As dificuldades do Núcleo, porém, eram enormes. Maiores ainda, sua perseverança e abnegação. Anos depois, em 1945, assume a Presidência do Núcleo o Comendador Helio Morganti, mecenas araraquarense. Três anos mais tarde, em 1948, resolve-se reorganizar a Escola, agora com moldes práticos, ou seja, a formação de professores de desenho, uma falta que o mercado já cobrava, dado o incremento nos ginásios pelo interior do estado da matéria como parte curricular.

Aliás, foi a Escola de Belas Artes de Araraquara, a precursora de tal iniciativa no estado de São Paulo, incluindo aí a capital. No período, o trabalho realizado em Araraquara alcançava reconhecimento em todo o país e fora dele. A cidade, no campo das artes, era assunto em todo o mundo.

UNESCO-I

Em 1950, depois de um período de inspeção preliminar, o Governo do Estado finalmente concedeu fiscalização permanente e a Escola passou a ser reconhecida através de uma Portaria datada de 4 de março e assinada pelo, então, Secretário dos Negócios do Governo.

Dois anos depois, o Núcleo recebeu da UNESCO, com sede em Paris, um convite para participar da organização de uma Sociedade Internacional de Artistas Plásticos. Sem condições de enviar representante, a escola ofereceu sua contribuição através de sugestões – mais tarde aceitas e incorporadas - de seus Estatutos.

É importante ressaltar que, de todas as associações congêneres brasileiras, a Escola de Belas Artes de Araraquara foi a única que respondeu ao questionário e tomou a sério aquele convite. No ano seguinte, em 1951, chegou a Araraquara, vindo da Itália, o conhecido pintor Domenico Lazarini. O artista se instalou em nossa cidade - atendendo convite do Comendador Helio Morganti -, para ministrar aulas de pintura na Escola de Belas Artes.

Paris e despejo

Oficializado no ano de 1952 pela Lei Municipal nº 205, promulgada pelo, então, Prefeito, Dr. Antonio Pereira Lima, o Salão de Belas Artes de Araraquara, no entanto, continuou sem receber ajuda oficial. Um ano mais tarde, em 1953, o Núcleo, honrosamente, era convocado para um Congresso de Artes Plásticas, que seria realizado em duas fases, em Paris e Veneza.

Por absoluta falta de recursos financeiros os artistas araraquarenses não puderam comparecer ao evento e acabaram por perder, definitivamente, como Escola, o contato direto com a UNESCO. O intercambio, entretanto, foi mantido aos professores e artistas araraquarenses por intermédio de uma Comissão formada para esta finalidade pelo Itamarati.

Tempos depois, a Escola de Belas Artes, que funcionava no prédio onde hoje está instalado o Museu Histórico e Pedagógico Voluntários da Pátria, foi despejado do local e, para não ter que fechar suas portas, mudou-se para o velho casarão da Rua Padre Duarte, próximo ao Colégio Progresso. Através de todos esses anos, o Núcleo, o “bravo” organismo dos abnegados araraquarenses amantes das artes, foi responsável pela formação de centenas de alunos em suas várias turmas, dentre eles, alguns dos mais destacados artistas brasileiros em suas formas de arte.

O último Salão de Belas Artes de Araraquara aconteceu em 1963, mesmo ano em que se formou a última turma de artistas da Escola. O ano de 1969, entretanto, é aquele que marca, definitivamente, o fim das atividades da Escola de Belas Artes de Araraquara. Sua extraordinária atuação, em que se pesem todas as dificuldades enfrentadas, fica, para sempre, na história cultural e artística da cidade, do estado e do país. E seu exemplo de abnegação e amor à arte, nunca deve ser esquecido.

 

 

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