23 de maio - A revolta de um povo

27.12.2016
23 de maio - A revolta de um povo

A criação do Núcleo do MMDC de Araraquara por parte da Polícia Militar, motiva a publicação de fatos e acontecimentos que culminaram no maior evento popular da história do País, o Movimento Revolucionário de 1932

Tudo começou no dia 1º de março de 1930, quando Julio Prestes vence as eleições para o governo federal e Getúlio Vargas não reconhece a derrota, denunciando fraudes no processo eleitoral.

Quatro meses depois, Vargas lança um manifesto contra a eleição de Prestes, detonando um movimento militar contra o governo. Finalmente, em 3 de outubro, Vargas comanda a Revolução de 30, que depõe o presidente Washington Luis.

O movimento recebe entusiasmado apoio em São Paulo. A população estava cansada das agruras da Velha República. Vicente Rao, Francisco Moratto e outras importantes lideranças paulistas da época se engajaram nas fileiras do Governo Provisório de Vargas, que prometia convocação de eleições gerais e diretas, voto universal e uma nova constituição.

Vargas Cometeu um erro em São Paulo, no entanto. Entregou o estado ao “braço armado” do movimento revolucionário, os Tenentistas, alijando do poder as lideranças civís que apoiaram e trabalharam pelo movimento revolucionário. São Paulo não aceitou e os ânimos se acirraram. 

Em março, o ex-embaixador Pedro de Toledo é nomeado por Vargas como interventor de São Paulo, no que seria uma sinalização de boa vontade por parte do novo governo. Mas, era apenas "fumaça". Pressionado a aceitar ingerências na nomeação do secretariado de seu governo, Pedro de Toledo reage e exige liberdade de ação. Getúlio ameaça tira-lo do cargo.

Foi com esse clima de pressão que São Paulo acordou naquele distante 23 de maio de 1932. 

Hoje, a seção "Memória“ trás de volta alguns fatos que precederam àquele fatídico dia em que as forças Getulistas atacaram, com metralhadoras, o povo concentrado na Praça da República, o que acabou culminando na maior Guerra Civil da história brasileira: O Movimento Constitucionalista de 1932.

 

São Paulo é loteado

Na tarde-noite de 24 de outubro de 1930, São Paulo explodiu em revoltas. Correrias, princípios de depredação, de saques e agressões. Havia muita mágoa represada; muito ódio armazenado contra as velhas oligarquias. A Revolução de 30 estava em marcha e a Velha República caia, com ruidoso apoio popular.

A Junta Pacificadora, no Rio, aproveitou-se das manifestações populares e fez a intervenção em todos os estados brasileiros, e em São Paulo não foi diferente.

Na madrugada do dia 25, a Junta nomeou como interventor (governador do Estado) o general Hastínfilo de Moura, comandante da Região Militar, em detrimento do Presidente do Partido Democrático Paulista, Francisco Morato, que tanto havia feito em favor da revolução e era nome tido como certo pelos revolucionários paulistas.

Os Tenentistas, no entanto, cobravam seu preço: apoiaram militarmente o movimento revolucionário, mas exigiam governar alguns estados. Queriam, sobretudo, São Paulo. Entre atender seus aliados políticos no estado e manter ao seu lado os aguerridos tenentes, Vargas escolheu os últimos. O mais rico estado da Federação foi entregue aos Tenentistas. 

Detenções, substituição em massa de dirigentes municipais, empastelamentos e perseguições. Era o fim da República Velha. Foi enterrada com sabor de vingança e com muita esperança no futuro que nascia. Por todo o Brasil pensava-se assim. 

O problema é que aqui, os líderes políticos alinhados com as causas de 1930 estavam alijados do poder.

O estado protesta, agita-se. O sentimento de revolta começa a florescer, aqui e ali, até que começam a ser notadas perigosas fagulhas de insatisfação em todo o território paulista. E as fagulhas viram chamas.  

 

As agressões

No início de 1932 o estado estava vergado pela crise econômica, grassava a desolação no campo, era grande a agitação proletária nas cidades industriais, aconteciam freqüentes atritos nas ruas entre membros do povo e da Legião Revolucionária, e a polícia getulista reprimia duramente qualquer ato público.

O Partido Democrático de São Paulo, que tanto lutara em favor de Getúlio, deita um manifesto reprovador as constantes agressões contra o povo paulista e ao estado militarmente ocupado. 

A polícia getulista invade sua Sede, prende Vicente Ráo, um dos líderes revolucionários de 30, e principal idealizador do projeto de desmonte do “perrepismo” no estado. Os paulistas foram, todos, para as ruas e a "guerra" começou. Nas ruas, os paulistas exigiam o resgate dos valores do movimento de 30, a convocação de uma constituinte e eleições diretas e gerais.

 

A explosão da revolta

A revolta não acontecia só em São Paulo. No Rio Grande do Sul, no Paraná, em Santa Catarina, em Minas Gerais e até mesmo na capital, Rio de Janeiro, explodiram, entre o final de 1931 e o início de 1932, inúmeros Movimentos contrários ao governo e a sua política. 

A polícia getulista reagiu e muito sangue brasileiro rolou por praças e ruas. Muita gente foi presa. 

O povo, porém, não se intimidou. Os jornais, mesmo aqueles alinhados ao governo, protestavam. O discurso era um só: “O governo provisório está provisório por tempo demasiado....  precisamos de uma Constituição....de eleições...”. 

São Paulo, por sua vez, exigia um interventor (governador) paulista e civil. Exigia, sobretudo, que o novo Secretariado não sofresse qualquer interferência dos próceres de 30. Os outros estados em revolta, vibraram com a notícia.

 

23 de maio – a covardia

Getulio recuou. Mas não muito. Nomeou o embaixador Pedro de Toledo para interventor de São Paulo e assim, aparentemente atendeu os paulistas. O problema foi nomear o Secretariado.

Pedro de Toledo não aceitou interferências e o governo de Getúlio ameaçou substituí-lo.

O dia 23 de maio, no entanto, amanheceu tranqüilo na capital paulista. Menos nas ruas do centro, e nas esquinas próximas da Rua Domingos de Moraes, onde alguns “tiras” surgiram de repente.

Populares notaram a movimentação e, rapidamente, a notícia de espalhou. A “ocupação militar” de São Paulo já tinha tirado a paciência do povo paulista. Os discursos começaram a espocar, aqui e ali. Em pouco tempo havia uma multidão nas ruas.

A atmosfera ficou eletrizada e todos, em altos brados, exigiam que o novo Secretariado de São Paulo fosse aclamado pelo próprio povo. De repente, no meio da multidão, alguém gritou: “Vamos ao Quartel General!”. Dezenas, centenas e, logo, milhares de bocas passaram a repetir, em coro: “Ao!...quar!...tel!....ge!...ne!...ral!....Ao...quar!...tel!...ge!...ne!...ral!...”. E assim foi. 

Ordenadamente, como em uma procissão, o povo se dirigiu ao Quartel das Forças Armadas. Era um ato muito perigoso. Até onde se sabia, o exército estava com Getúlio.

Quando atravessavam o Viaduto do Chá, estouraram “Vivas” a São Paulo e ao Brasil e alguém gritou “Morte a ditadura”.

Com essas palavras de ordem o cortejo chegou a Rua Conselheiro Crispiniano, onde ficava o Quartel. Os líderes temiam ser recebidos sob fogo de metralhadoras. Lá, a surpresa. Os portões estavam abertos, escancarados. Diversos oficiais apareceram e se congratularam com os manifestantes. O Exército estava com São Paulo. 

Calorosas palmas ecoaram por toda a rua. “Ao Quartel da Força Pública...ao Quartel da Força Pública”, passaram a gritar os manifestantes. E lá se foram eles. Ao chegarem, outra surpresa. Os portões estavam fechados. 

Enquanto os líderes explicavam as razões do Movimento aos atentos oficiais uma gritaria começou no meio da praça. O povo estava sendo atacado a tiros. Correria, raiva, gritos, brigas e sangue. 

Minutos depois, cinco corpos jaziam no chão: Mario Martins de Almeida, Euclydes Bueno Miragaia, Drausio Marcondes de Souza, Antonio Américo de Camargo Andrade estavam mortos. Orlando de Oliveira Alvarenga, gravemente ferido. Revoltada, a multidão se dirigiu até o Palácio dos Campos Elíseos e gritou seu apoio a Pedro de Toledo. 

São Paulo queria lutar.

MMDC

Martins, Miragaia, Drausio e Carmargo. Os quatro mártires no ataque da polícia de Getúlio contra o povo naquele distante 23 de maio de 1932, inspiraram a criação do MMDC, cuja sigla leva as iniciais de seus sobrenomes, uma organização civil que acabou a frente do maior Movimento Popular já ocorrido na historia Brasil e que culminou na Revolução Constitucionalista de 9 de julho daquele ano. 

Já Orlando, seriamente ferido no mesmo ataque, veio a falecer meses depois e por um lapso ocorrido na época, não teve seu nome incluído na sigla. 

Os mártires

- Orlando de Oliveira Alvarenga, nascido em Muzambinho-MG no dia 18 de dezembro de 1899, era filho do Sr. Ozório Alvarenga e de Dna. Maria Oliveira Alvarenga. Deixou viúva Dna. Annita do Val e um filho de nome Oscar. 

Orlando faleceu em 12 de Agosto de 1932, em plena Revolução, num quarto do hospital Santa Rita, onde foi internado no dia 23 de maio.

- Mario Martins de Almeida, nasceu em São Manoel-SP, em 8 de fevereiro de 1901. Era filho do Coronel Juliano Martins de Almeida e de Dna. Francisca Alves de Almeida. Tinha 06 irmãos. Tinha 24 anos.

- Euclydes Bueno Miragaia, nascido em São José dos Campos, no dia 21 de abril de 1911. Era filho do Sr. José Miragaia e de Dna. Emilia Bueno Moragaia. Deixou 05 irmãos. Morreu aos 21 anos.

- Drausio Marcondes de Souza nasceu na cidade de São Paulo, em 22 de setembro de 1917. Filho do Sr. Manuel Octaviano Marcondes de Souza, farmacêutico, e de Dna. Ottilia Moreira da Costa Marcondes, tinha 04 irmãos. Tinha 14 anos quando foi morto.

- Antonio Américo de Camargo Andrade, nascido no dia 03 de dezembro de 1901, era filho de Nabor de Camargo Andrade e de Dna. Hermelinda Nogueira de Camargo. Era casado com Dna Inaiah de Camargo. Deixou 03 filhos e 03 irmãos. Faleceu aos 30 anos.

Nota:

Nas fotos abaixo pode-se ver: 1 - Um flagrante do enterro de um dos mártires de 23 de maio de 1932 /// 2 - Uma rara foto em que aparecem Martins, Miragaia, Drausio e Camargo com os braços entrelaçados a frente da multidão naquele dia 23 de maio, pouco antes de o grupo ser atacado a bala /// 3 - Os quatro mortos no ataque (não conseguimos obter alguma foto confiável de Orlando) /// 4 -Imagens do povo nas ruas durante o período.

 

Revista Cidade

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