Revolução de 1932 - O povo de São Paulo pelo País

04.07.2017
 Revolução de 1932 - O povo de São Paulo pelo País

Tudo começou em outubro de 1930, quando Getúlio Vargas apoiado pela Aliança Liberal e contando com o braço armado dos Tenentistas, protagonizou a Revolução que colocou fim ao regime da Velha República e suas práticas Oligárquicas no país. 

O movimento pregava a convocação de uma Constituinte, o voto secreto e universal, além de profundas reformas políticas e sociais, e contava com entusiasmado apoio em todo o território nacional, tendo nos líderes do Partido Democrático de São Paulo como, Vicente Ráo, Francisco Moratto alguns de seus principais ativistas. 

Coube a Vicente Ráo, inclusive, a confecção do plano que desmobilizou completamente as lideranças e a estrutura do PRP, partido que dava base a Velha República. 

Vitorioso o movimento, formou-se um Governo Provisório, nomeou-se interventores para todos os estados e governadores (hoje denominados Prefeitos) para as cidades. 

Havia muita mágoa represada contra os antigos governantes, no entanto. Por todo o território nacional, perseguições, agressões, saques. 

Os Tenentistas, tantas vezes derrotados em antigas tentativas de tomar o poder, exigiam dirigir alguns estados. Depois da malograda tentativa de depor o Presidente de São Paulo Carlos de Campos no ano de 1924, ocasião em que tiveram que empreender fuga pelo interior do país, os Tenentistas exigiram governar o mais rico estado da federação. 

Entre fazer o correto e nomear os líderes revolucionários paulistas para comandar São Paulo, ou agradar aos Tenentistas, Vargas optou por entregar o estado aos últimos. São Paulo não aceitou, exigiu um interventor civil e paulista e os ânimos se acirraram. 

 

Civil e Paulista

No poder, os Tenentistas ocuparam militarmente o estado de São Paulo. O tempo passava, e nada de o Governo Provisório falar em constituinte ou eleições. Por todo o Brasil, desconfiava-se de um golpe por parte dos Próceres de 30 para se perpetuar no poder. O povo paulista foi para as ruas e exigiu o fim da liderança Tenentista no estado. 

Pressionado, Getúlio cedeu. Em março de 1932, depois de enormes manifestações populares, Vargas nomeou o ex-embaixador Pedro de Toledo, paulista e civil, como interventor de São Paulo. Pressionado a aceitar ingerências em seu governo no momento de nomear o Secretariado, ele reage e exige liberdade de ação. Getúlio ameaça tira-lo do cargo. O povo foi novamente para as ruas. 

O Partido Democrático de São Paulo, que tanto lutara em favor de Getúlio, deita um manifesto reprovador as constantes agressões contra o povo paulista e ao estado militarmente ocupado. A polícia getulista invade sua Sede, prende Vicente Ráo, justamente ele, o idealizador do projeto de desmonte do “perrepismo”. 

A revolta, porém, não acontecia só em São Paulo. No Rio Grande do Sul, Paraná, Santa Catarina, Minas Gerais e até mesmo na capital, Rio de Janeiro, explodiram, entre o final de 1931 e o início de 1932, inúmeros movimentos contrários ao governo e a sua política. 

Os jornais, mesmo aqueles alinhados ao governo, protestavam. O discurso era um só: “O governo provisório está provisório por tempo demasiado....precisamos de uma Constituição....de eleições...”. Getúlio reprimiu as manifestações com violência e com isso, a revolta do povo só aumentou.

 

23 de maio 

O dia 23 de maio amanheceu tranqüilo na capital paulista. Menos nas ruas do centro, onde alguns “tiras” de Getúlio ocupavam pontos estratégicos. Sabia-se que o ministro Oswaldo Aranha estava na capital, e corria de boca em boca a noticia de que sua presença em São Paulo se dava para depor Pedro de Toledo. Rapidamente as ruas se viram tomadas pelo povo. A ocupação militar de São Paulo já havia enchido a paciência dos paulistas. 

Os discursos começaram a espocar, aqui e ali. A atmosfera ficou eletrizada e todos, em altos brados, exigiam que o novo Secretariado de São Paulo fosse aclamado pelo próprio povo. De repente, a multidão resolveu se dirigir até o Quartel das Forças Armadas. Ordenadamente, o povo se dirigiu ao Quartel. Os líderes temiam ser recebidos sob fogo de metralhadoras. Lá, a surpresa. Os portões estavam abertos, escancarados. Diversos oficiais apareceram e se congratularam com os manifestantes. O Exército estava com São Paulo. 

De lá, os manifestantes resolveram ir até o QG da Força Pública. E lá se foram eles. Ao chegarem, enquanto os líderes explicavam as razões do Movimento aos atentos oficiais, alguns integrantes da passeata forçaram a porta da sede da odiada Legião Revolucionária de Getúlio. 

Uma gritaria começou no meio da praça. O povo estava sendo atacado a tiros. Correria, raiva, gritos, brigas e sangue. Pouco depois, 5 corpos jaziam no chão: Mario Martins de Almeida, Euclydes Bueno Miragaia, Drausio Marcondes de Souza, Antonio Américo de Camargo Andrade estavam mortos. Orlando de Oliveira Alvarenga, gravemente ferido (faleceria em um quarto de hospital no mês de agosto). 

Revoltada, a multidão se dirigiu até o Palácio dos Campos Elíseos e gritou seu apoio a Pedro de Toledo. 

 

Planejamento 

Entre fins de maio e início de julho a tensão no país cresceu a níveis bastante perigosos. Rio Grande do Sul, Paraná, Minas, Santa Catarina, São Paulo e lideranças dissidentes do Rio de Janeiro confabulavam desde fevereiro uma reedição da Frente Única de 30 para depor o Governo Provisório. A eclosão do movimento foi marcada para o dia 14 de julho. 

Na data combinada as forças de São Paulo deveriam se concentrar nas divisas do Estado onde aguardariam as forças dos demais Estados envolvidos, para então,juntos, todos caminharem em direção a capital do País, Rio de Janeiro. Uma Revolução estava em marcha. 

 

MMDC

Em 9 de julho de 1932, entretanto, o ambiente estava eletrizado na capital paulista. Por volta das 22 horas daquele dia, as pessoas que deixavam os cafés, bares e teatros, se depararam com as primeiras movimentações de tropas pela capital. Estudantes começaram a circular pelas ruas com fuzis a tiracolo. Soldados e viaturas iam, freneticamente, de um lado para outro. 

Benedicto Chaves, repórter do jornal A Platéia, foi um dos primeiros paulistas a entenderem o que se passava. Ao sair pelas ruas em busca de notícias, passou diante do antigo prédio da Rua do Tesouro, onde estivera a Prefeitura, a Câmara Municipal e, depois o Fórum. Notou defronte e em seu interior uma grande movimentação de jovens fardados e a paisana. Resolveu entrar. 

Em cima, como no pavimento térreo, cidadãos comuns faziam filas para preencher fichas. Homens, senhoras, jovens, arrastavam mesas, cadeiras, armários, e varriam o assoalho. Então o repórter perguntou - “O que é isso?” – Ao que respondeu um dos presentes: “É o MMDC. O posto central de mobilização que recebeu esta denominação em memória das 4 primeiras vítimas do Movimento Constitucionalista. Os jovens, Martins, Miragaia, Dráusio e Camargo. Aqui é nosso Quartel. Estamos inscrevendo voluntários para derrubar a ditadura”. 

Em seguida o rapaz passou informações a respeito do funcionamento do Posto, do serviço de recrutamento de voluntários, diretores e outros pormenores. 

O velho casarão do Largo São Francisco estava transformado num Quartel, numa “praça de guerra”. Os estudantes haviam trocado os livros pelo fuzil. 

Ao mesmo tempo em que os civis empunhavam armas, os militares de São Paulo desembainhavam as espadas, reverenciando a Lei e o Estado de Direito. São Paulo iria lutar pela Constitucionalização do país. 

O jornalista, pasmo, deixou-se cair em uma cadeira: “É incrível! Um exército do povo!”. 

E o povo paulista, nas ruas, cinco dias antes da data combinada com os outros estados envolvidos no Movimento Constitucionalista, acabou por deflagrar a Revolução.

 

Cercado

O movimento de 32 foi organizado pelos mesmos líderes que estiveram à frente da Revolução de 30. Sua intenção: resgatar os valores que motivaram a derrubada da Velha República e implantar a normalização democrática do país. 

Porém, com a precipitação do movimento em 9 de julho por São Paulo, o Governo Provisório, agiu rapidamente e contando com o recuo de alguns dos envolvidos na conspiração, desmantelou as lideranças de Santa Catarina, Minas e Paraná. 

São Paulo ficou sozinho. Cercado pelas forças federais, o estado, na época, foi acusado por Getúlio, em transmissões de rádio, de separatista e de tentar impor os valores da Velha República. Isso nunca aconteceu, mas foi a única forma encontrada pelo Governo Provisório para justificar em todo o país o ataque armado contra as forças paulistas que permaneceram estacionadas nas divisas do estado esperando o apoio prometido e que nunca chegou. 

 

Três meses

A Revolução, que durou três meses, foi uma epopéia que mobilizou homens, mulheres, idosos e crianças por todo São Paulo e custou quase mil vidas. 

A derrota do movimento de 32, que teoricamente se transformou em vitória com a Constituinte de 1934, tornou definitiva, com a implantação do Estado Novo em 1937, a maior verdade defendida pelos lideres revolucionários derrotados naquela ocasião: Getúlio queria governar sob regime ditatorial.

Os ideais da Revolução de 32 somente puderam ser alcançados pelo país em 45, com o fim da ditadura do Estado Novo. 

É chegada à hora de se levar a sério o Movimento de 32. Aquela Revolução mostrou que toda vez que houver a tentativa de imposição ditatorial no país, haverá resistência profunda nos Estados mais desenvolvidos, aqueles que não se deixam controlar de maneira humilhante. 

E São Paulo, embora sozinho, manteve firme sua palavra até o fim.

Revista Cidade

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