Cia. do Tijolo segue com seu repertório de espetáculos no Sesc Araraquara

19.10.2018
Cia. do Tijolo segue com seu repertório de espetáculos no Sesc Araraquara

A rádio Conexão São Paulo/Assaré anuncia que uma companhia de teatro de São Paulo chega para entrevistar o poeta Patativa do Assaré. O que seria uma entrevista costumeira se transforma num diálogo entre o popular e o erudito, o urbano e o rural e culmina com a denúncia de um dos primeiros ataques aéreos contra civis dentro do território brasileiro, que não consta nos livros da história oficial do Brasil.

Com esse mote, o espetáculo apresenta sua causa humanista e universal, o seu lirismo incomum, a sua capacidade de expressão no campo musical e, sobretudo, a perspicácia de quem vive as peculiares circunstâncias do seu sertão, interpretando como poucos os sentimentos de sua gente. A peça está em cartaz no Sesc Araraquara no próximo sábado (20), em única apresentação às 20 horas. Os ingressos custam entre R$5 e R$17 e já podem ser adquiridos tanto no Portal Sesc, como nas bilheterias físicas.

Concerto de Ispinho e Fulô, foi vencedor do Prêmio Shell de Teatro de melhor música e indicado pela ousadia em sua criação. Unindo a poética de Patativa do Assaré às concepções éticas e filosóficas do educador Paulo Freire, e somando-se às experiências pessoais dos atores, resulta num espetáculo sensível e emocionante. A peça ressalta sua incansável e constante luta pelos direitos igualitários entre os homens, a exaltação à natureza e a sua adorada terra, a irreverência poética. Este é um espetáculo no qual os espectadores participam como se estivessem no quintal da casa do Poeta, tomando café, dando seus depoimentos, iluminando a cena e cantando.

As músicas do “Concerto de Ispinho e Fulô” são executadas ao vivo por um violão, uma viola, um acordeom e percussão. A escolha das músicas foi feita  com base em uma pesquisa sobre as sonoridades do sertão e nas cantigas que vemde muitas gerações do povo brasileiro, e passa por compositores como Luiz Gonzaga, Nelson Cavaquinho e Adoniran Barbosa, entre outros, além de composições inéditas de Jonatan Silva.

Não se trata, no entanto de um espetáculo biográfico. É, antes de mais nada, uma apologia à vida elevada ao estado de poesia pura, ao poder da poesia que tem como linha mestra a comunicação direta e pungente; é também uma reflexão sobre a identidade sertaneja em contraste com o estilo de vida nas grandes cidades. 

 

Sobre Patativa do Assaré

De Antônio Gonçalves da Silva a Patativa do Assaré. Do homem ao Poeta.

“Sou brasileiro filho do nordeste. Sou cabra da peste, sou do Ceará”.

Que trajetória percorre um homem semianalfabeto com todo um mundo contra si, até atingir a poesia?  Gênio, genética, sorte, estado de graça? Pode, essa trajetória ética/estética se destrinchada interessar a nós, habitantes das grandes cidades do século 21? Aí está a razão de nosso trabalho. Acreditamos que sim e essas perguntas são os motores primeiros de nossas pesquisas.

As penas acinzentadas, as asas e cauda pretas da patativa, pássaro cantador que habita o Nordeste brasileiro, batizaram o poeta Antônio Gonçalves da Silva, conhecido como Patativa do Assaré. Patativa, poeta autodidata, ganhou projeção em todo o Brasil nos anos 50 por ocasião da regravação de "Triste Partida", toada de retirante gravada por Luiz Gonzaga. Filho de agricultores, Patativa do Assaré nasceu no dia 5 de março de 1909 em Serra de Santana. Cedo, o menino Antonio Gonçalves da Silva teve que se dedicar a roça, espaço síntese de labor e criação, onde natureza e cultura dialogavam e se ofereciam como laboratório para o menino. O menino logo cedo começou a perder a visão, vítima de uma doença chamada por ele de “mal dos olhos”.  Curioso de tudo o que havia em volta e além, o pequeno Patativa ensaiava seus vôos versejando enquanto carpia. A idade adulta chegou com o mesmo cenário com as mesmas dificuldades, mas com vôos mais altos: poesia difundida em livros, em discos, em filmes e objeto de análise em universidades e uma legião cada vez maior de admiradores e fãs. Sua poesia denunciou e denuncia as injustiças sociais, que somadas ao clima pouco favorável do sertão, fazem a tragédia cotidiana do povo sertanejo. Mas Patativa também falou do amor, do vício, contou histórias, tratou enfim da experiência humana. Faleceu no ano de 2002 em Assaré.

A vida e a obra de Patativa vêm despertando cada vez mais o interesse de pesquisadores, com publicações de antologias, estudos críticos e produções audiovisuais. Poeta itinerante, criador de imagens definitivas, como “Brasil de Cima e Brasil de Baixo”, pioneiro na luta pela Reforma Agrária no país, convencionou-se afirmar que “o que faz a força e o sabor da poesia de Patativa é, sem dúvida, o vínculo indestrutível entre o poeta, o sertão e o público”. Por isso, este espetáculo busca trazer à tona, através de seus versos, a dramaticidade pungente da lira e da vida pessoal do Trovador do Assaré, seus elementos musicais, e a atmosfera do sertão. 

Patativa, poeta humanista, homem simples e profundo. Através de suas trovas transmuta em arte o sofrimento de um povo. Cantar e contar sua poesia e suas histórias é proporcionar aos espectadores a oportunidade de reviver sua própria história através de um resgate musical, sonoro e poético. Em um Brasil que ainda tem suas raízes fincadas no jeito simples de se viver, na generosidade interiorana de se receber um estranho, na religiosidade e no silêncio para entender tanto as vozes dos pássaros como as vozes Deus, a poesia de Patativa é uma travessia do regional para o universal, tocando cada espectador por sua graça e sua por pungência.

 

Sobre a Cia. do Tijolo 

A Cia do Tijolo nasceu do desejo de criar um espetáculo a partir da obra de Patativa do Assaré, que culminou nos espetáculos “Cante Lá que eu Canto Cá” e “Concerto de Ispinho e Fulô”. Do encontro entre os artistas de diversas experiências de vida e de teatro, a Cia. passou construir sua história e sua identidade artística. Depois de nove meses de pesquisa e ensaios e de dois anos apresentando seu segundo trabalho Brasil e mundo afora, mergulharam em um novo processo de criação que trouxe novos questionamentos e múltiplos desejos. O reconhecimento dos princípios éticos e estéticos norteiam o caminhar deste coletivo no seu fazer artístico.

A proximidade com a poesia como forma do discurso os levou a outro poeta, Federico Garcia Lorca, como fonte motriz e inspiradora deste novo Cantata para um Bastidor de Utopias. Mas não é só a forma poética que os levou de Patativa a Lorca. Ambos são poetas de sua terra e de seu tempo e transformam suas vivências cotidianas em experiências humanas universais; ambos trafegavam com sua poesia entre o popular e o erudito; ambos foram, cada um a seu modo, revolucionários; ambos eram poetas engajados sem nunca terem se filiado a nenhum partido político; ambos perceberam a miséria em seu aspecto mais absurdo e a denunciaram. Carregavam em si o germe do inconformismo diante da opressão, um inconformismo que se expressa poeticamente. São estas inquietações que os empurraram para o “Cantata Para Um Bastidor de Utopias”.

 

Serviço

Espetáculo Concerto de Ispinho e Fulô

Dia: 20/9, sábado

Horário: 20h

Local: Ginásio

Classificação: 16 anos

 

Ingressos

(Limitados a 2 por pessoa)

R$ 5,00 (Credencial Plena);

R$ 8,50 (aposentado, pessoa com mais de 60 anos, pessoa com deficiência, estudante e servidor da escola pública com comprovante);

R$ 17,00(Inteira / Credencial Atividades).

Revista Cidade

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