Ilhabela é o maior cemitério de navios de toda a Costa brasileira

28.08.2015
Ilhabela é o maior cemitério de navios de toda a Costa brasileira

Distante 7 quilômetros do continente, a Ilhabela tem 340 quilômetros quadrados de área  cobertos, em boa parte, por trechos intocados da  Mata  Atlântica e conta com 36 praias e mais de 300 cachoeiras, que fazem a festa dos turistas. O que poucos sabem é que ao redor da paradisíaca ilha está o maior cemitério de navios de toda a costa brasileira.

Foram mais de cem naufrágios registrados desde 1894. O maior deles, o do Principe das Astúrias, ganhou repercussão até no hemisfério Norte, ainda traumatizado pelas 1.513 vitimas fatais do Titanic, que em 15 de abril de 1912, durante sua viagem inauguração, bateu num iceberg e desapareceu sob as águas geladas da costa do Canadá.

Foi um horror cinematográfico. Não faltaram tempestade, raios despencando do céu e cerração no momento em que o navio foi de encontro a uma ilhota rochosa, no local denominado Ponta do Boi. O mais estranho é que na Ponta do Boi existia um farol, cuja luz, que se projetava a cada dez minutos numa distância de três milhas, não foi percebida por ninguém, a não ser no momento em que ocorreu o desastre, durante a madrugada.

 

 

Mais de cem naufrágios

A tragédia do transatlântico Príncipe de Astúrias foi apenas um  entre os muitos acidentes que já ocorreram em Ilhabela, cujas águas são conhecidas como o maior cemitério de navios da costa brasileira. Não existem números oficiais, mas acredita-se que mais de cem embarcações entre navios, veleiros e pesqueiros já tenham ido a pique nos perigosos costões da ilha por motivos os mais diversos de ondas enormes, com mais de cinco metros de altura, a ventos fortes e densos nevoeiros.

O primeiro naufrágio registrado na região foi o do navio inglês vela-vapor Dart. em 1894. Perdido em meio a uma forte cerração, ele encalhou nas pedras de Itaboca por causa da total falta de visibilidade. Pertencente à Casa Real Britânica, a embarcação, de apenas dois anos. acabou afundando.

Na primeira década do século 20, os naufrágios pipocaram. Em 1905, dois vapores brasileiros foram para o fundo do mar, o Vitória, que submergiu na laje do Araçá próximo a São Sebastião, e o Atílio, que se chocou com o veleiro Alttanir na Ponta da Pirabura. No ano seguinte, foi a vez do vapor francês France em 1906, que teve o casco rasgado depois que sua bússola foi afetada pelo magnetismo das pedras da ponta da Piraçununga.

Tempos depois, dois acidentes tiveram lances pitorescos envolvendo os náufragos. Em 1908, o navio de passageiros inglês Velasquez, que fazia a linha Buenos Aires - Nova Ior, que, foi socorrido pelo rebocador Milton depois que bateu e encalhou nos costões da Ponta da Sela, devido à agitação do mar. Alguns passageiros nadaram para a costa e acabaram  por ficar na ilha, encantados com suas belezas naturais: outros simplesmente se perderam nas matas.

Em 21 de março do ano seguinte, 21 sobreviventes do cargueiro britânico Wathor, que  naufragou  na Ponta de Sepetiba,  ficaram perdidos por mais de uma semana nas matas da ilha, sem comunicação e alimento.

 

Ataques de submarinos

Nem os navios militares escapavam das águas traiçoeiras da região. Em 1913, numa noite de tempestade, o rebocador Guarani, da Marinha de guerra, chocou-se violentamente contra o vapor brasileiro Borborema,  próximo à Ponta do Boi. Outro acidente foi registrado em 1920, quando uma forte cerração colocou o navio brasileiro Teresina e o veleiro Inglês San Janeco em rota de colisão, na Ponta de Itapecerica. No mesmo ano o veleiro alemão Almirante Siegmund  bateu contra as pedras da costeira do Borrifos, afundando rapidamente.

Em 1921 foi a vez de mais dois navios brasileiros, o Aymoré e o Tritão, naufragarem  na Ponta do Ribeirão.

Durante a Segunda Guerra Mundial, as águas de Ilhabela foram visitadas por submarinos alemães, e ficou ainda mais perigoso navegar naquela região. Na época, duas embarcações  teriam  sido torpedeadas por U-boats: o navio norte-americano Eliuhud Washburne, que afundou próximo à Ponta do Boi -atingido pelo submarino alemão U-513 - e o navio brasileiro Campos, vítima de um ataque do U-170.

A partir dos anos 40 e 50, com a progressiva introdução dos radares nos  navios, os índices de acidentes caíram  sensivelmente, e o último naufrágio de que se tem  notícia nas costas de Ilhabela data de 1971, quando o Ucrânia, um pesqueiro de alto mar de bandeira brasileira foi  jogado sobre os costões dos Frades, durante um  temporal

 

O Titanic brasileiro

O maior e o mais importante naufrágio já ocorrido na costa brasileira aconteceu no ano de 1916, quando o navio espanhol Principe das Astúrias se chocou violentamente contra os rochedos da Ponta da Pirabura, em Ilhabela, causando oficialmente 477 mortes.

O númeto, no entanto, é contestado até os dias de hoje, já que depoimentos da época afirmam que o navio trazia clandestinamente nos porões cerca de 1,5 mil de refugiados alemães - fugitivos da 1ª Grande Guerra -, o que elevaria o numero de mortos para perto de dois mil.

Construido em 1914, o Principe das Astúrias era o orgulho da marinha mercante espanhola, possuía 150 metros de comprimento, deslocava até 17.000 toneladas de carga e trasportava em acomodações oficiais 1,7 mil passageiros.

O Transatlântico fazia a rota Espanha-Argentina, com escalas no Brasil e Uruguai. Saiu de Barcelona em 17 de fevereiro, iniciando sua viagem de número 6 para a América Latina. Escalou em Cadiz e após sair das Canárias, o navio atravessou o Atlântico com destino a Santos.

Transportando uma valiosa carga de 40.000 libras esterlinas de um agência bancária de Buenos Aires, navio levava ainda uma estátua de bronze do General San Martin, que seria doada ao governo argentino.

Na madrugada do domingo de Carnaval (06 de março), chovia forte e a cerração tornava a visibilidade quase zero. Soprava um forte vento leste e o mar estava muito agitado. Por volta das 3 horas da manhã, o navio estava em volto de um denso nevoeiro e forte tempestade, indo contra ondas de até 6 m de altura, fazendo com que a tripulação não avistasse Farol da Ponta do Boi.

Ao se aproximar da Ilhabela o capitão ordenou diminuição da marcha e mudança do curso em direção ao alto-mar, porém não houve tempo, um relâmpago revelou os rochedos da Ponta da Pirabura, onde o navio ia descansar para sempre.

As 4 horas e 20 minutos da madrugada, um estrondo sacudiu o sono das centenas de passageiros. O navio bateu violentamente na lage submersa da ponta da Pirabura, abrindo uma enorme fenda no casco. Com a entrada de água na sala de máquinas, duas das caldeiras explodiram, causando o afundamento do navio em 5 minutos.o naufragio foi logo relacionado ao Titanic,afundado 4 anos antes

O número de mortos poderia ser maior se não houvesse o resgate feito pelos tripulantes do navio inglês "Vega" que passava próximo no momento do acidente.

Depoimentos da época afirmam que ao clarear do dia o mar levou dezenas de corpos para a Baía dos Castelhanos, espalhando todos pela areia da praia.

O único brasileiro a bordo do Príncipe de Astúrias era o jovem gaúcho José Martins Viana, estudante de engenharia, que retornava da Suíça. Ele tinha 18 anos e ia desembarcar em Buenos Aires, de onde pretendia se dirigir à sua cidade natal, Santana do Livramento. Quando o navio afundou, Viana se agarrou em uma tábua. Acabou desmaiando e foi salvo por uma jovem, Marina Vidal, que o arrastou para a ilhota da Ponta do Boi.

A região onde ocorreu a tragédia ainda foi vasculhada pelo navio-faroleiro Tenente Lameyer, que não encontrou quaisquer sinais de outros sobreviventes. Alguns cadáveres apareceram em Ubatuba, nas praias Grande  e das Toninhas. No dia 9, foram encontrados os corpos de quatro homens e duas mulheres. Todos foram atacados por tubarões e estavam terrivelmente mutilados.

Revista Cidade

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