Em única apresentação, Cia Hiato repensa o palco como um meio democrático

16.03.2017
Em única apresentação, Cia Hiato repensa o palco como um meio democrático

Espetáculo Amadores volta-se às experiências teatrais mais comuns (o evento comemorativo, a festa, a apresentação amadora de fim de ano,o exercício) e as subverte, colocando-as num espaço de artes, para refletir sobre nossa relação com a arte e como o nosso desejo por ela revela nossas histórias pessoais, superações e falhas

No próximo sábado (18), às 20h, o Sesc Araraquara torna-se palco para o encontro de artistas amadores e profissionais. O espetáculo “Amadores”, a mais nova produção da Cia. Hiato chega à cidade em única apresentação, com ingressos que variam entre R$5 e R$17 reais.

Como podemos trazer para o reino da representação indivíduos e corpos que muitas vezes são excluídos dessa possibilidade? Como podemos usar o acontecimento teatral e seus recursos – suas convenções, códigos, locais, gêneros e profissionais – a fim de readequar sua moldura, ou seja, aumentar o perímetro do que pode ou não ser colocado num palco? E ainda, como podemos repensar o palco como um meio democrático, ao alcance de todos aqueles atraídos pela efemeridade da cena?

Amadores é um espetáculo teatral resultante da atual pesquisa da Cia., na qual atores profissionais e artistas amadores de diversas áreas (selecionados através de anúncios em jornal ou oficinas públicas) se encontram em cena. O que começou como uma entrevista, em que cada um deles exibiu suas especialidades e seus “objetos de arte”, no palco torna-se um compartilhamento de experiências pessoais que questionam nossa relação com a arte e como nosso desejo por ela pode revelar nossa história, nossos desejos e nossas falhas – a desesperança, o anseio pelo outro, a falta de pertencimento.

O espetáculo é um relato poético, mas também um manifesto artístico. Uma galeria de retratos vivos. Um passeio por histórias e contextos que poderiam nos separar, mas que se aproximam em cena. Um evento que almeja o estabelecimento (ainda que só poético, porque tão distante da experiência real) de um palco sem divisões. 

Depois do "Projeto Ficção", no qual o depoimento biográfico representa um meio de questionar a própria teatralidade, a Cia Hiato retorna à cena paulista com esta nova abordagem: deixa de lado o depoimento pessoal para olhar o outro, aquele que normalmente é excluído do palco ou que só aparece nele como representação ou discurso. No palco, estes indivíduos são portadores de um discurso pessoal que os revela também socialmente: seja pela marginalização por questões raciais, de gênero ou sexualidade. O trabalho, porém, não corre o risco de ser interpretado apenas sob um prisma social.

Antes, o que se vê em cena é uma espécie de diálogo cênico que remove (ou, pelo menos, confronta) as distinções entre artistas e artesãos, profissionais e amadores, cena e política. Não se trata apenas de colocar em cena pessoas cuja relação com a experiência artística é secundária ou cuja qualidade técnica é limitada, mas sim dar espaço de manifestação àqueles que são marginalizados das artes (como público ou como profissionais).  É também a possibilidade de colocar em cena pessoas para quem o palco é o seu  trabalho e aqueles a quem o palco nunca foi “permitido”. 

 

Sobre a cia. Hiato

Há quase dez anos a Cia. Hiato estreou seu primeiro espetáculo, “Cachorro Morto”. Nesses anos, seu projeto artístico foi compartilhado com o público através da criação de cinco espetáculos, que associam memória e invenção, alicerçados em dois pilares fundamentais. O primeiro, a investigação de novas dramaturgias, que vão desde a Escrita linear que é a multiplicada e fracionada constantemente (Cachorro Morto),  passando por um mapa textual cujas lacunas são expostas a partir de diferentes perspectivas (Escuro – Prêmio Shell de Melhor Autor, Cenário e Figurino; Prêmio CPT De Melhor Dramaturgia e Projeto Visual) ou por uma estrutura  fractal, simultânea e fragmentada que simula os procedimentos mnemônicos (O Jardim – Prêmio Governador do Estado, Prêmio APCA de Melhor Direção, Prêmio Shell de Melhor Autor e Cenário) até o depoimento autoral que questiona procedimentos de representação e autoria (Ficção – 3 indicações ao Prêmio Shell, Prêmio Questão de Crítica de Melhor Ator; e 2 Ficções – coprodução com o KunstenFestivaldesArts/ Bruxelas).  

O segundo pilar é a autoria de seus atores, impressa na transformação de biografias em ficções, alinhavando referências literárias a memórias – entre o discurso artístico e o depoimento pessoal, entre o indivíduo e o coletivo, entre o público e o privado. Após uma série de apresentações em importantes palcos e festivais internacionais – Alemanha, Áustria, Bélgica, Chile, Colômbia, Estados Unidos, Holanda, Grécia e Romênia, o coletivo retorna a São Paulo para dar um passo em direção oposta aos recentes trabalhos da Cia. Hiato.  Abandonamos a pessoalidade, a metalinguagem e a biografia para pensar o outro, aquele que normalmente é excluído do palco ou que só aparece nele como representação ou discurso.

 

Serviço:

Espetáculo Amadores 

Dia: 18/3, sábado

Horário: 20h

Local: Teatro

Classificação: 16 anos

 

Ingressos:

R$ 5,00 ( Credencial Plena);

R$ 8,50 (aposentado, pessoa com mais de 60 anos, pessoa com deficiência, estudante e servidor da escola pública com comprovante);

R$ 17,00 (Inteira / Credencial Atividades).

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