Especial de Aniversário 202 anos de Araraquara - 2ª parte

22.08.2019
Especial de Aniversário 202 anos de Araraquara - 2ª parte

Por Hamilton Mendes

O 1º “Padrinho”

Em 22 de Agosto de 1817, por Alvará do Rei D.João VI, Araraquara, na época um bairro, foi desmembrada de Piracicaba, Comarca de Itu. O documento diz o seguinte: ”Nº32=Reino=Resolução de Consulta da Mesa de Consciência e Ordem de 22 de agosto de 1817. Crea uma Freguezia, no Bairro de Araraquara, da Comarca de Itu, Bispado de São Paulo”.

Estava criada a Freguezia de São Bento de Araraquara. Por aqui, o Padre Manoel Malachias, que já dava os sacramentos antes mesmo de sua criação, e os moradores de então, vibraram com a noticia. Com a nova situação, fazia-se necessário nomear um Capitão das Ordenanças.

O cargo deveria ser ocupado por pessoa respeitada e, preferencialmente, indicada por alguém ilustre para imediato deferimento do Rei. Em Araraquara, o padre Malachias, que acreditava ter cacife suficiente para indicar o futuro titular do cargo, mobilizou os moradores em torno de José Pinto Ferreira, “morador da Freguezia, amigo, familiar e servidor religioso”.

Já o Capitão Mor de Itu, Vicente Costa Taques Góis e Aranha, apoiado por pessoas importantes daquela localidade, indicou Manuel José do Amaral. Travou-se, então, uma renhida disputa entre os dois grupos que envolveu ,inclusive, pessoas ilustres de outras regiões. Finalmente, em 8 de janeiro de 1820, o Rei D. João VI  nomeou Manuel José do Amaral, o preferido pelas autoridades de Itu. Foi a primeira batalha política por um cargo público da história de Araraquara e, já na época, o “padrinho” mais forte fez a diferença.

 

Acorrentados

Um documento curioso de nossa história é o que trata de jovens araraquarenses alistados para servirem na Guarda Nacional, o 1º Serviço de Alistamento Militar do país que recrutava membros entre o povo, no período do império. Trata-se de um recibo de 1839, firmado pelo carcereiro de Constituição, hoje Piracicaba, ao receber prisioneiros e jovens de Araraquara escolhidos para o Serviço Militar de então. O documento diz o seguinte: “Recebi do Sr. Demétrio José Xavier 7 presos de crimes e 5 recrutas e todos ficaram na mesma corrente que se transportou a dita escolta de São Bento de Araraquara pó não haver outra que pudesse servir....”.

 

Enterrados na Matriz

Nos primeiros tempos de Araraquara, os enterros eram feitos na Igreja Matriz que, para tal fim, tinham parte de seu piso retirado onde se abriam as covas. Os mais ilustres, como Pedro José Neto, por exemplo, eram enterrados em baixo do altar. Era o costume da época.

Em 1º de outubro de 1828, simultaneamente com Portugal, o governo aprovou uma lei proibindo a pratica e ordenando a todas as Freguesias, Vilas e Cidades que construíssem, sem demora, cemitérios para esses fins. Em terras portuguesas a iniciativa causou indignação geral, o que acabou por motivar uma rebelião popular que ficou conhecida como a “Revolução da Maria da Fonte”, quando o povo se insurgiu contra a obrigação de se construir cemitérios. No Brasil não aconteceram revoluções, porém, o descontentamento foi geral. Deu muita confusão.

 Em Araraquara, os moradores do período protestaram com veemência contra a lei que obrigava o enterro seus entes queridos no cemitério, ainda por se construir, em detrimento do solo sagrado da igreja. Um dos principais argumentos utilizados pelos araraquarenses de então, era que “...um Cristão não pode ser enterrado como Cains...”.

A confusão foi uma das principais “dores de cabeça” enfrentadas pelo Sr. Carlos José Botelho, 1º Presidente da Câmara Municipal da Villa de São Bento de Araraquara, eleita e empossada em 24 de agosto de 1833. Como o assunto não se resolvia, o Presidente da Província de São Paulo passou a pressionar os vereadores de Araraquara no sentido de se implantar as medidas exigidas na lei. A coisa complicou.

Pressionada, de um lado, pela população local, e de outro, pelo Presidente da Província, os vereadores adiaram o quanto puderam a solução da questão. Capitularam, no entanto. E o cemitério saiu do papel. O que não ficou totalmente resolvido foi a cultura enraizada na população de utilizar a igreja Matriz para realização de enterros e, alguns deles, especialmente os de pessoas ilustres daqui,  continuaram acontecendo ainda por muitos anos, como o do próprio Sr. Carlos José Botelho, falecido 22 anos depois da construção do cemitério.

 

Carlos Botelho

O Sr. Carlos Botelho, filho do Capitão Mor, Bartholomeu de Arruda Botelho, Comandante da Guarda Nacional de Piracicaba, foi o primeiro Presidente da Câmara Municipal de Araraquara quando, em 1832, a pequena Freguesia foi elevada à condição de Vila. Carlos Botelho assumiu, juntamente com os demais vereadores, em agosto de 1833 quando foi, oficialmente, instalada a Vila de São Bento de Araraquara.

Na época, o primeiro mandatário da Câmara local, que era proprietário da Sesmaria do Pinhal, onde mais tarde, em 1857, foi fundada a cidade de São Carlos, era casado com Dna. Cândida, com quem teve nove filhos. Dentre os eles, Antonio Carlos de Arruda Botelho, o “Conde do Pinhal”, político atuante no período, grande benemérito da cidade de São Carlos, e Presidente da Câmara Municipal de Araraquara entre os anos de 1857 e 1860.

Apenas como registro, por ocasião de seu falecimento, o Sr. Carlos Botelho, pai do Conde do Pinhal, foi enterrado na igreja Matriz. Não existem registros de ruas em nossa cidade que levem o nome dos dois grandes homens de nosso passado.

 

A coisa era séria!

As sessões da Câmara Municipal de Araraquara começaram a ser realizadas em agosto de 1833. E a coisa era séria. Embora não recebessem salário, os vereadores que faltassem as reuniões da Casa sem motivo justificado eram multados. A regra valia também para os eleitores do período. Durante a eleição “Parochial da Villa de São Bento de Araraquara”, realizada em 7 de setembro de 1836, compareceram 124 pessoas, com 32 abstenções. Todos os cidadãos faltosos foram multados de 10 mil réis cada um.

 

O Primeiro Jornal

Na história de nossa cidade, vários foram os informativos impressos em forma de jornal. No início, no entanto, foram distribuídos apenas por questões ideológicas, ocasiões especiais (como comemorações), ou por motivo e denuncias e brigas políticas. Não tinham distribuição constante. A tradição da imprensa escrita na cidade, ao que se sabe, começou em 6 de março de 1881, com a publicação do primeiro número de “O Município de Araraquara”, considerado como sendo o 1º jornal impresso e distribuído de forma regular por aqui. O Arquivo Público Rodolfo Telarolli conta em seu acervo com um fac-símile do exemplar doado ao município pelo Sr. José Ferrari, um dos maiores estudiosos da história de Araraquara em todos os tempos.

Revista Cidade

Publicidade

Brasil